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“O verdadeiro empreendedor se aventura em qualquer ambiente”

Com experiência à frente de startups e de grandes empresas, Salim Ismail, embaixador global da Singularity University, fala sobre empreendedorismo

Por Mariana Iwakura
   Divulgação
Salim Ismail, 46 anos, nasceu na Índia, cresceu no Canadá, morou na Europa e, há dez anos, vive nos Estados Unidos. Ele já criou diversas startups, entre elas a Angstrom, agregador de informações de mídias sociais que foi vendido para o Google por alguns milhões de dólares (o valor exato não pode ser revelado). Foi também vice-presidente no Yahoo!, à frente do departamento de inovação da companhia. Hoje, Ismail é embaixador global da Singularity University, entidade que ajudou a fundar. Sediada no campus de pesquisa da Nasa, em Moffett Field, no Vale do Silício, a instituição oferece cursos de educação executiva com foco na multiplicação de tecnologias transformadoras. Ismail está no Brasil para palestrar do Executive Program da Fiap, evento que ocorre hoje (16/3) e amanhã em São Paulo. O especialista falou com a Pequenas Empresas & Grandes Negócios antes de embarcar para o Brasil, de Israel, onde estava prospectando mais alunos para a Singularity University. Confira a entrevista.

O senhor já criou empresas, trabalhou em empresas, como funcionário, e ajudou a desenvolver inovação. Quais são as diferenças nesses processos?

Ao criar uma empresa, você começa do zero. Tem uma boa ideia, mas precisa estruturá-la. É preciso resolver um problema de verdade e aumentar a escala dessa solução. A situação é completamente diferente da minha atuação no Yahoo!, onde já existiam uma grande estrutura e processos. Trabalhar em uma grande empresa é como subir em um navio e tentar navegar, enquanto lançar uma startup é como construir um barco sozinho. Enquanto você está se afogando.

Há semelhanças nos dois processos?

Ambos são muito estressantes, mas de maneiras diferentes. Estar à frente de uma startup é muito estressante. Mas há muito mais recompensa. Você é o dono do negócio, pode desenvolver o que quer e ninguém fica dizendo o que você deve fazer. Mas você também não tem muita ajuda.

Como o senhor começou a fazer parte da Singularity University?

Eu sou o CEO fundador. Quando eu estava no Yahoo!, estabeleci um relacionamento entre a empresa e a Nasa, e eles me chamaram para a conferência de fundação da SU, há dois anos e meio. Eu nunca tinha ouvido falar de Peter Diamandis e Ray Kurzweil, os cofundadores, mas fiquei bastante animado com o que estavam tentando fazer. Eu fiz tantas perguntas, durante a apresentação, sobre como eles levariam o projeto adiante, que eles me chamaram para liderá-lo. Eu tenho background em ciência, em computação, desenvolvi empresas, morei em diversos países, fiz software, investi em negócios, gerenciei equipes, tive até uma empresa de eventos. Então a SU era um encaixe perfeito de todas as peças de quebra-cabeça do meu passado. No último ano e meio, a partir de uma experiência no Brasil, eu comecei a ficar muito animado com o potencial global do que nós estávamos fazendo.

O que chamou a sua atenção no Brasil?

Nós fizemos um concurso, em parceria com a Fiap, para encontrar um aluno ótimo para nosso curso no Vale do Silício. A proposta era que o candidato trouxesse uma boa ideia que impactasse 1 milhão de pessoas em São Paulo. No final de dois meses, recebemos 230 projetos. Eu fiquei muito animado porque a energia foi impressionante e inspiradora. Eu disse para o board da SU: se nós conseguirmos fazer isso na Cidade do México, em Xangai, em Jacarta, o impacto será enorme. Então, no ano passado, fiz 12 concursos como esse. Neste ano serão 20. O concurso no Brasil foi o protótipo, e deu muito certo.

O senhor acha que, aqui no Brasil, há características diferentes, que causaram essa resposta positiva?

O Brasil é muito empreendedor, ambicioso e expressivo. A combinação desses fatores leva as pessoas a dizer “eu posso fazer isso!”

Vocês planejam vir para o Brasil e trazer cursos mais longos para cá?

Vamos começar com cursos como o programa desta semana, com a Fiap. Não sabemos ainda como expandir ou replicar o modelo que temos no Vale do Silício. Lá existe uma densidade de palestrantes que é muito importante para nós. Além da cultura local e de estar abrigado na Nasa, o que é um grande fator.

Como o programa da SU se diferencia de outros cursos, como os MBAs?

Há três grandes diferenças. Nós aceleramos as tecnologias que podem ganhar escala e causar um impacto global. Segundo, nós nos concentramos no futuro, e não no passado. Por exemplo: quando as sequências genômicas vão custar apenas US$ 100? Como isso vai impactar a população? Nossos futuros líderes precisam se projetar no futuro. A terceira diferença é que não é suficiente para nós que nossos alunos fiquem estudando em casa. Nós queremos que eles ajam, que tenham boas ideias, trabalhem em projetos, mobilizem equipes. É um método muito prático. Eles estudam durante metade do verão e, no resto do tempo, colocam as ideias em prática. Eles têm coaching para apresentações e business plans. O objetivo é alavancar tecnologias para resolver os maiores problemas do mundo.

Mais ou menos metade dos alunos têm experiência profunda em uma área tecnológica. Eles têm mestrado ou doutorado em robótica ou medicina. A outra metade são empreendedores, designers, arquitetos. É preciso ter diversidade para chegar a um resultado realmente interessante.

O empreendedorismo pode ser ensinado e aprendido na escola? Ou algumas coisas só são aprendidas com a vida?

Acho que muitas coisas podem ser ensinadas. Mas, com a vida, nós aprendemos lições sobre pessoas. Então, se você está pensando em contratar alguém, precisa tomar decisões. É mais intuitivo. Há bastante que pode ser aprendido sobre empreendedorismo. Mas a intuição e a experiência, a vontade de ir lá e fazer, nada substitui isso.

Há diferenças entre empreendedores ao redor mundo?

Acho que há grandes diferenças. Na verdade, vou explicar de outra forma. Acho que os empreendedores são parecidos, mas os ambientes em que eles operam são muito diferentes. Em Israel, por exemplo, há um background tecnológico muito forte, mas eles às vezes não têm facilidade para criar boas experiências de uso, o design do produto. Na Europa, não são bons em arriscar.

Quem é bom em arriscar?

Brasil, Israel, Índia, China. Muito mais do que na Europa. Isso se deve em parte à fome pelo sucesso. Aqueles países têm mais ambição. Eles querem melhorar as suas vidas e as da sua família.

O sistema política influencia o ambiente empreendedor?

O empreendedor se aventura em qualquer ambiente. O risco que um empreendedor toma ao lançar um negócio é tão grande que, se o governo tender levemente para a direita ou para a esquerda, não fará tanta diferença. Um empreendedor de verdade não vai deixar de abrir um negócio por causa da inclinação política do governo.

Países com grande problemas de dívida, como a Grécia, podem ser salvos pelo empreendedorismo?

Com certeza. Essa é a única saída para esses países. Por dois motivos: as startups criam todos os novos empregos. Então é preciso ter empreendedores para isso. A segunda razão é que é preciso que novos modelos de negócio e novas iniciativas tomem os lugares daqueles que fracassaram. O empreendedorismo é crítico para resolver problemas estruturais, como o da Grécia, dos Estados Unidos ou da Europa. 

Fonte: http://revistapegn.globo.com/

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